sábado, 7 de novembro de 2009

Da África aos dias de hoje – O afro-descendente e a construção do Brasil

A África foi a parte essencial da formação cultural, social e econômica de nosso país, sendo os negros, como afirmava Darcy Ribeiro, “ser a massa substancial da força de trabalho de construir o Brasil”. Foram trazidos, principalmente, da costa ocidental da África. Não podemos analisar este continente como algo homogêneo, mas sim como um território de dimensões astronômicas, verdadeiro berço da humanidade. As especificidades dos diversos grupos humanos que habitam/ou habitavam este continente é desconhecida pelo senso comum que generaliza a África como um único padrão cultural, religioso, econômico e social.

Os grupos que supostamente vieram para alimentar a empresa escravista no Brasil, com o objetivo de desenvolver e explorar a colônia, a partir da produção de açúcar, assim como a mineração de ouro e metais preciosos, tiveram como base os povos Yoruba – denominados como nagô, pelos Dahomey – chamados como gegê, e os Fanti-Ashanti, designados geralmente como minas. Estes, assim como outros menores grupos, vieram de regiões como Angola, Congo, Moçambique, Nigéria e Benin (antiga região do Daomé). Defende também Arthur Ramos (1940, 1942, 1946).

Todos estes povos possuem uma história extensa e dotada de grande complexidade. Muitos deles anteriormente a dominação europeia, produziam objetos de cerâmica, praticavam agricultura, conheciam a técnica da metalurgia e criavam gado. Se organizam em estruturas complexas como Estados que possuíam comércio e utilizavam a moeda como expressão monetária.

Os milhões de africanos sequestrados e trazidos para a América, principalmente para o Brasil, criaram de forma dolorosa tudo o que aqui se consolidou. Capturados e arrastados pelos pombeiros – mercador africano de escravos - utilizados pelos europeus para comercializar estes em troca de tabaco, aguardente e objetos de interesses destes grupos. A primeira leva de escravos transportados por navios continha cerca de 12 milhões de seres humanos. Destes, metade teve o Oceano Atlântico como cemitério. “Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas ou açucares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias do ano”, Darcy Ribeiro (1995).

O escravismo foi estruturado em alicerces constituídos pela violência bárbara e desumana, pela concentração do solo, exploração das riquezas e pela monocultura. Esse sistema tinha também como projeto a desconstrução cultural dos povos africanos, como vinham fazendo com os indígenas – sem sucesso. A linguística, parte da expressão e identidade fundamental de um povo, assim como outros aspectos culturais, como a religiosidade, foram manipuladas para impedir que houvesse tentativas de resistência por parte dos africanos. A diversidade linguística da África fez com que os portugueses evitassem a concentração de escravos originários das mesmas regiões étnicas em propriedades e navios negreiros. Assim buscavam destruir qualquer laço de identidade e solidariedade que houvesse entre o mesmo grupo.

Surpreendente é, ainda hoje, saber como os diversos povos africanos, assim como os indígenas sofrem com as tentativas de desconstrução de sua cultura, sendo forçados a deixar suas crenças, sua compreensão de mundo, deixando de ser eles próprios, numa tentativa de transfiguração que não vinga. Estes, juntamente com os indígenas que restaram do grande etnocídio, assim como a miscigenação com o português, esta impossível de deter, formou o povo que somos hoje, o brasileiro. Os negros e os indígenas impediram que nos tornássemos uma cópia da Europa. Impuseram, a partir de muita luta e resistência, novos padrões culturais que permanecem em todo o país, como o catolicismo brasileiro, as demais religiões, a culinária, a musicalidade, a força, o conhecimento, nossa beleza com os traços mais fortes, sem esquecer nossa subversão. Isto ainda é negado e marginalizado, o que faz dos afro-descentes vítimas de um processo de invisibilidade de uma sociedade de bases originárias e contemporaneamente marcada pelos preconceitos e pela exploração.

Muitos dos orixás trazidos da áfrica pelos escravos estão muito mais presentes na nossa cultura do que na cultura do continente negro. Os Orixás são as forças vitais que tudo gera e conduz. É a natureza e toda a sua expressão, como as águas, a terra, as árvores, o mar, o ar, assim como esta força que nos faz levantar todos os dias ou o que nos dá sopro de vida. Os negros brasileiros são sinônimo de fé, de força e de sobrevivência. As religiões de origem africana foram fundidas nas senzalas unindo diversos mitos, costumes. Sincretizado para deixar de ser algo próprio e se tornar algo brasileiro, como o catumbi, o candoblé, a umbanda e a macumba. Portanto, mitos como Iemanjá (a rainha do mar) sobrevivem em todo o território, do nordeste ao sul do Brasil.

Ainda hoje, mesmo com a generalização da pobreza, da violência entre brancos e negros, fruto de um sistema cada vez mais desigual e desumano, o negro é aquele que acarreta as piores condições de vida. São os que possuem o menor acesso a educação, ao emprego, a saúde e a moradia digna. São vitimas constante do preconceito institucionalizado, sofrendo reflexos históricos nas periferias. Essas se transformaram nas senzalas modernas onde os negros continuam sendo castigados aos montes.

Apesar disto, temos o exemplo de que o negro vem, ao longo do tempo, resistindo a sua condição de exploração e superando-a através das organizações culturais, religiosas e políticas, na tentativa de destruir a falsa democracia racial que se publicizou e garantir um país onde as riquezas não sejam benefícios de poucos. Cabe ainda debatermos amplamente as condições e a divida histórica que possuímos com o afro-descendente, assim como superarmos tal sistema, onde aqueles que produzem todas as coisas, são os mesmos que delas são excluídos.


Willian Luiz da Conceição – Acadêmico do Curso de História da Univille


ligaspartakus@gmail.com

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O MST e as Laranjas



Podemos presenciar nos últimos dias uma forte “denúncia” por parte dos deputados(as) federais, senadores(as), canais de televisão entre outros, acerca da ocupação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, na região de Capivari, interior de São Paulo, onde supostamente teriam destruído parte das plantações de laranja da propriedade.

A “propriedade” seria da empresa Cutrale, produtora mundial de suco de laranja. Vale lembrar e questionar o por que não citam os homens e mulheres bem vestidos, em seus discursos acalorados de cima da tribuna do congresso nacional, nem nos jornais taxados de “neutros” que as terras ocupadas pelo MST foram griladas de pequenos agricultores e da própria União, que tal empresa carrega milhares de dividendos trabalhistas, processos ambientais, além de plantar laranjas transgênicas – tecnologia com alto teor de risco, com enormes efeito destrutivos sobre o meio ambiente e a vida humana.

Há quinze anos o MST, movimento de luta pela democratização das terras no país, vem ocupando os latifúndios da região de Capivari denunciando a falta de interesses dos governos e do Judiciário de realizar a Reforma Agrária em áreas que não respeitam as leis trabalhistas, ambientais como afirma a constituição brasileira. Estas devem ser desapropriadas para fins de Reforma Agrária. Mas, ninguém trata da inoperância e da lentidão da Reforma Agrária, política que resolveria os problemas de centenas de famílias que lutam por um pedaço de terra naquela região, e de outras milhares em todo o Brasil.

Que Estado Democrático de Direito é este? Que continua sendo mantenedor da propriedade, da concentração de terras e riquezas, de repressão, criminalização dos movimentos sociais e da pobreza. O MST continuará ocupando terras, sendo está a única maneira de enfrentar o falso Estado Democrático, assentado pelas elites reacionárias e conservadoras que historicamente excluíram milhares de homens e mulheres; negros, indígenas e colonos pobres do direito a terra.

Willian Luiz da Conceição é Acadêmico de História da Universidade da Região de Joinville – UNIVILLE, Presidente do PSOL – Joinville e Colaborador do Setor de Relação com a Sociedade do MST.

ligaspartakus@gmail.com

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fora Sarney ou Fim do Senado?

Por Willian Luiz da Conceição

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, declara Marco Túlio Cícero, referindo-se ao senador Lúcio Sérgio Catilina, em 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Acusado de ações criminosas, Catilina se recusava a renunciar o seu mandato, ameaçando um golpe contra o senado.

As bases ideológicas do Senado sempre foram podres. A formação do Senado constituída no Brasil Império em maio de 1826, instituição que fora criada como tentativa das oligarquias escravocratas em manter o julgo da escravidão no país, foi introduzida na maior parte dos países com base na assembleia romana e mais tarde baseada no senado dos Estados Unidos.

O Senado no Brasil era composto por senadores proprietários rurais, ligados ao escravismo e que buscavam influenciar nas questões políticas e administrativas do império. Com a Revolução Industrial fortalecendo-se na Inglaterra e outros países europeus, o modelo econômico brasileiro mantinha-se com base escravista para alimentar o capital mercantil, exportando principalmente açúcar e café.

Como objetivo de maior inserção dos estados na política nacional, já no Brasil republica – o senado, ainda hoje é espaço das oligarquias estaduais urbanas e rurais brasileiras expressarem seus interesses. Sua estrutura contribui para fortalecer ainda mais a máquina burocrática do Estado brasileiro, frente as políticas sociais necessárias ao povo.

A composição social de nosso Senado é em sua maioria empresários, industriais e latifundiários, que além de trabalhar a seu próprio interesse, vem fortalecendo a retirada de direitos conquistados historicamente pelos trabalhadores, alimentando-se da riqueza nacional. Legitimam a criminalização da sociedade civil organizada e principalmente dos movimentos sociais e populares que lutam por justiça social e pela soberania do país, apresentado o caráter conservador e reacionário do senado.

E não fosse só isso, o senado tem arraigado em seus poros a corrupção e um alto custo de manutenção de cada senador, que impossibilita que o dinheiro público volte ao povo em forma de serviços sociais como saúde, educação e segurança pública.

A luta dos brasileiros neste momento de crise histórica da ética numa instituição corrupta por natureza, não deve ser apenas de substituir um corrupto por outro, como se tenta historicamente, e como temos visto com José Sarney. Resolver o problema do senado é institucionalizar a crise e lutar pelo fim do próprio senado federal, esta instituição arcaica, um dos pilares do retrocesso de toda nossa história.

Willian Luiz da Conceição é acadêmico de história da UNIVILLE e Presidente do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL Joinville).



quinta-feira, 30 de julho de 2009

Hondureños ejecutan paro cívico en una nueva jornada de resistencia

El presidente Manuel Zelaya se mantiene en la frontera de Nicaragua con Honduras, mientras su esposa, hijos y gran cantidad de manifestantes lo esperan del otro lado de la línea fronteriza. Su retorno a la nación continúa bloqueado, por fuerzas militares golpistas .

Los movimientos sociales de Honduras continúan en protesta este jueves apoyados por un paro cívico nacional del sector estatal, y la toma de carreteras e instituciones públicas en varias partes del país, en contra del gobierno de facto liderado por Roberto Micheletti y a favor de la restitución del presidente legítimo Manuel Zelaya.

La acción se une a la huelga de 48 horas que convocaron las tres centrales sindicales del país el pasado domingo, tras una asamblea del Frente Nacional contra el golpe de Estado.

Durante el encuentro, se adoptaron medidas para la recuperación del orden constitucional y se planteó fortalecer las acciones para ejercer presión al régimen actual que gobierna Honduras.

A las manifestaciones de este jueves y del viernes se sumarán los seis colegios del magisterio nacional, los cuales en una estrategia para evitar la pérdida del curso escolar, regresan a las aulas los tres primeros días de la semana.

Maestros y profesores mantuvieron una paralización durante tres semanas, luego del golpe de Estado efectuado el pasado 28 de junio.

En los tres últimos días, miembros del Frente cerraron los accesos de los principales complejos de lujosas y caras tiendas de la sociedad pudiente del país.

Las acciones fueron ejecutadas en repudio a la participación de los empresarios en las estrategias golpistas basadas en desestabilizar el orden constitucional.

Esta protesta afectó al Metro Mall, entre cuyos propietarios se encuentran el ex presidente de origen panameño Ricardo Maduro.

El gobierno de facto por su parte, prorrogó nuevamente el toque de queda en el oriental departamento de El Paraíso, sometido al estado de sitio desde hace seis días. Tal medida ha provocado una emergencia humanitaria en la zona.

Esa determinación del gobierno de facto está ligada a la presencia de la resistencia popular a favor del presidente Zelaya, que está a la espera de su presidente en la zona.

Tropas del ejército y la Policía mantienen retenes en la carretera Panamericana camino al puesto de Las Manos, fronterizo con Nicaragua, para cerrar el paso a miles de personas que esperan reunirse con el presidente Manuel Zelaya, quien está del otro lado de la frontera.

La familia presidencial de Manuel Zelaya encabeza las concentraciones que exigen que le permitan el paso al derrocado mandatario.

Vigilias populares en la embajada de Venezuela y la emisora Radio Globo continuaron en horas de la madrugada de este jueves por sexta jornada consecutiva en un esfuerzo de protegerlas de acciones de las fuerzas policiales.

teleSUR - Pl / ld-PR

Link: http: //www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/54931-NN/hondurenos-ejecutan-paro-civico-en-una-nueva-jornada-de-resistencia-contra-micheletti/

terça-feira, 28 de julho de 2009

PSOL elege nova direção em Santa Catarina


O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) elegeu sua nova direção estadual em Santa Catarina neste sábado, durante o 2º Congresso Estadual do partido. O presidente do PSOL, Afrânio Boppré, foi reconduzido para o cargo e ficará à frente da direção partidária pelos próximos dois anos. A votação se deu em chapa única, eleita por unanimidade com 32 votos.

Após o 2º Congresso, a cidade de Joinville passa a estar representada na direção estadual por meio de dois militantes. O jornalista Leonel Camasão agora integra a executiva estadual do partido,como novo secretário de comunicação. Enquanto isso, o estudante de Filosofia Hernandez Vivan foi eleito membro-titular do diretório estadual. O secretário de Organização do PSOL Joinville, Ivan Rocha de Oliveira, também foi eleito membro-suplente do diretório.

Exatas 150 pessoas participaram das plenárias do PSOL em 14 municípios catarinenses. Ao todo, 32 delegados estaduais foram eleitos para o congresso. Durante o Congresso Estadual, também foram escolhidos os cinco delegados para o Congresso Nacional do PSOL. O Congresso ocorrerá em São Paulo, nos dias 21, 22 e 23 de agosto de 2009.


Nova Executiva Estadual

Afrânio Tadeu Boppré Presidente

Luana Bergmann Secretária Geral

Dari Diehl 1º Secretário

Alciléia Medeiros Cardoso Tesoureira

Valmir Martins 1º Tesoureiro

Leonel Camasão Secretário de Comunicação

Rogério Fossati Pinto Secretário de Formação

Odelondes de Souza Secretário de Organização

Marcos Aurélio Neves Secretário de Movimentos Sociais

Diretório Estadual

Titulares

Ancelmo Salvador Mafra

Claiton Weizemann Dionísio Cerqueira

Gilberto Porto Belo

Hernandez Eichenberger Joinville

Leoberto Piacentini Urussanga

Nestor Ribeiro Lages

Nilton Coelho São José

Odirlei Dell’Agnolo Brusque

Osni Walfredo Wagner Blumenau

Rodolfo da Silva Florianópolis

Tânia Ramos Florianópolis

Walmir Karling Concórdia


Suplentes

Hartmut Kraft Blumenau

Ivan Rocha de Oliveira Joinville

Modesto Azecedo Florianópolis

Nilton Lourenço Junior Mafra

Paulo Wilpert Florianópolis

Delegados Nacionais do PSOL Santa Catarina

Titulares

Afrânio Boppré

Dari Diehl

Luana Bergmann

Odelondes de Souza

Willian Luiz da Conceição

Suplentes

ClaitonWeizemann

Leonel Camasão

Nilton Coelho

Osni Walfredo Wagner

Rogério Fossati

segunda-feira, 20 de julho de 2009

PSOL vai se organizar em Núcleos

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em Joinville iniciou um importante passo de sua organização política e social. Para reforçar seu carácter de partido socialista, de luta e com viés democrático, o PSOL estará organizando-se através de núcleos de base.

Os núcleos incluem todos os militantes do partido, divididos por local de trabalho, estudos, região , entre outros. Os núcleos terão como objetivos a formação política dos militantes novos e antigos, inserção social em seus locais de atuação e o fomento das lutas junto aos movimentos populares e sociais.

Ao todo, cinco núcleos vão dar início a essa forma de organização partidária. Dois deles estão localizados em instituições de ensino superior, já que o PSOL de Joinville foi refundado, em sua maioria, por estudantes universitários. Os núcleos do Ielusc e da Univille vão contribuir com a luta nas universidades e debater o movimento estudantil e seu papel.

O núcleo sindical vai fomentar as lutas de reivindicação nos diversos setores profissionais, pontuando o momento de crise em que nos encontramos e que atinge centenas de trabalhadores/as, enquanto o núcleo de ocupações vai atuar, fortalecer e contribuir com a luta por moradia popular, levando em consideração o grave problema de política de habitação na cidade e o avanço da especulação imobiliária que força centenas de homens e mulheres a ocuparem locais irregulares

O PSOL também vai investir em seu primeiro núcleo de bairro, com a intenção de formar novos militantes e atuar nas mais diversas regiões de Joinville. O primeiro núcleo nessa área vai atuar nos bairos Petrópolis e Parque Guarani, ambos na Zona Sul da cidade.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Atrelados a empreiteiras, governos seguem ignorando direito à moradia

Por Gabriel Brito

Na semana passada, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) iniciaram uma jornada de protestos diante da casa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no centro de São Bernardo do Campo. Na ocasião, integrantes do movimento se acorrentaram diante da residência, recebendo a companhia de outro companheiro a cada dia passado sem negociações. Começando com três acorrentados, o número se elevou a oito até a visita de um assessor da presidência (em 13/07).

O movimento exige a desapropriação de diversos terrenos, a regularização de cerca de 2000 famílias do acampamento Anita Garibaldi, maior celeridade na resolução da situação do Acampamento Carlos Lamarca, entre outras questões. Em entrevista ao Correio da Cidadania, o dirigente Guilherme Boulos afirmou não ter restado alternativa diferente ao movimento, ignorado em suas reivindicações e sofrendo despejos freqüentemente violentos, em franco conluio do poder público com a especulação imobiliária.

Destacando o fato de muitas famílias estarem há quase 10 anos esperando pelo acesso à moradia, Boulos lamenta o fato de o movimento ser duramente reprimido quando busca somente a aplicação da função social da terra e do direito constitucional a todos garantido da casa própria. Talvez o fato, para ficar em um exemplo, de o prefeito paulistano Gilberto Kassab ter recebido das empreiteiras 12 milhões dos 27 milhões de reais gastos em sua campanha seja explicativo.

Com a força do capital especulador e financiador de campanhas, ele não hesita em dizer que o programa Minha Casa, Minha Vida lançado pelo governo "não tem a menor condição de solucionar o déficit habitacional no país", uma vez que, além da desequilibrada destinação de subsídios, não enfrenta a questão das desapropriações e os interesses das empreiteiras e especuladores da terra.

Correio da Cidadania: O que levou os integrantes do movimento a chegarem a tal ponto em seus protestos, acorrentando-se diante da residência do presidente?

Guilherme Boulos: O que levou aos acorrentamentos foi o esgotamento das outras possibilidades de mediação. O governo federal estabeleceu uma série de compromissos com o MTST, como a construção de casas e viabilização de empreendimentos que atendam à demanda do movimento. E desde alguns anos, pelo menos 2005, quando esses compromissos começaram a ser estabelecidos, não vêm sendo cumpridos.

O que na verdade tem acontecido, ao contrário de empreendimentos de construção habitacional, são despejos. Estamos com problemas concretos de despejo na região de Sumaré, previsto para daqui a duas semanas, sendo que a localidade abriga 4000 pessoas; existem ainda casos de famílias que esperam há anos por acordos em situação precária; e o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ lançado pelo governo tampouco sinalizou que irá incluir essas famílias mais necessitadas e que esperam há muito tempo.

Por todo esse conjunto de fatores que fomos protestar diante da casa do presidente.

CC: E são aproximadamente quantas famílias envolvidas em todo o estado de São Paulo à espera de uma moradia?

GB: Somente no estado de São Paulo calculamos quase 20.000 famílias vinculadas ao movimento. Aqueles que estão na casa do Lula o fazem em nome de todo esse contingente.

CC: Há quanto tempo, em médias, essas famílias estão esperando pela concessão de suas moradias?

GB: Isso depende de caso a caso. Há famílias que esperam há oito, nove, dez anos. E há também aquelas que não se organizam nos movimentos sociais e só se cadastram nos programas do governo. Esses casos podem chegar a até 20 anos.

No movimento muitas famílias esperam há cerca de 8 anos, como disse, e ainda não foram contempladas.

CC: Qual a rotina dos acampamentos, em que condições passam os dias e meses as pessoas alojados com o movimento?

GB: As condições dos acampamentos são extremamente precárias no sentido da infra-estrutura urbana. Na medida em que há uma ausência do poder público para suprir as necessidades básicas das famílias, as condições são muito precárias em termos de saneamento, alimentação, enfim, todas as dificuldades que existem não só nas ocupações do movimento, mas também no conjunto de todas as grandes periferias urbanas.

No entanto, quando o movimento social está presente, de alguma forma essa situação é contrabalanceada pelo trabalho coletivo, solidariedade e ajuda mútua que existe entre as pessoas que fazem parte desse processo de luta.

As condições permanecem sendo precárias, mas há uma solidariedade maior que torna a sobrevivência possível.

CC: Quais têm sido as posturas do governo na condução do processo e trato dos militantes?

GB: Até hoje (segunda, 13/07) não havia sido aberta negociação. Exatamente hoje tivemos uma reunião com um assessor da presidência, que veio a São Paulo dialogar com o movimento, sem ainda uma sinalização clara de proposta governamental para atender às demandas e reivindicações apresentadas por nós. De toda forma, abriu-se um andamento da negociação, a fim de solucionar nosso problema.

CC: O que, em sua opinião, impede o governo de regularizar as moradias e posses de terrenos em áreas há muito tempo ocupadas e que muitas vezes não estão cumprindo nenhuma função social e/ou econômica?

GB: Na nossa avaliação a força do capital imobiliário, a importância da indústria da construção civil, a importância dos especuladores imobiliários e também seu peso político, inclusive com bancadas parlamentares e financiamentos de campanha, são todos fatores decisivos para que tais setores mantenham seus privilégios, muitas vezes de forma ilegal.

A Constituição assegura a função social da propriedade. Mas a gente vê grandes latifúndios urbanos abandonados há anos, servindo apenas à especulação, sem serem desapropriados e sem que haja posturas do governo, em todas as suas instâncias, no sentido de fazer valer alguma função social da terra.

E quando o movimento busca a aplicação dessa função social da terra em muitas vezes é tratado com repressão.

CC: E essa repressão por você mencionada tem sido exagerada?

GB: Considerando só o MTST, temos sofrido nos últimos anos – além das formas mais tradicionais de repressão, como violência policial direta, protestos judiciais e criminais contra dirigentes do movimento, despejos arbitrários – ações civis de interdito proibitório, que impedem o movimento de se manifestar em prefeituras, o que também ocorre com o movimento sindical no Brasil, com interditos que impedem greves e piquetes em determinadas fábricas e empresas.

Portanto, além da repressão de sempre, estamos tendo nosso direito de manifestação tolhido.

CC: Você teria em mente situações que tenham deixado claro algum tipo de conluio entre iniciativa privada e poder público em lutas do movimento, como concessão de terrenos, despejos?

GB: Ah, sim, são casos muito freqüentes. Podemos dar vários exemplos. Houve um despejo em São Paulo no qual as famílias receberam indenizações pagas por uma incorporadora que tinha interesse no terreno vizinho, pois desenvolvia um empreendimento ao lado da ocupação. O poder público se aliou à empreiteira, interessado em valorizar o terreno em construção, e deu uma migalha para as famílias saírem.

Em outra oportunidade, ocupamos o terreno de uma grande multinacional, financiadora de campanha, e na época tanto parlamentares como o governador Geraldo Alckmin se posicionaram de maneira truculenta em favor do despejo, defendendo os interesses da empresa.

Enfim, eu poderia aqui recorrer a uma série de exemplos. É muito frequente essa promiscuidade entre o capital privado do setor imobiliário e o poder público no ataque aos direitos das famílias sem teto.

CC: Acredita que o pacote habitacional lançado por Lula, tão elogiado por teoricamente se voltar aos brasileiros de menor renda, surtirá algum efeito real nessa camada de pessoas que ainda não conseguem acessar sua moradia própria? Acredita que ajudará a reduzir o déficit habitacional ao menos em algumas metrópoles?

GB: Esse pacote é muito limitado. Primeiro porque apenas 40% das unidades habitacionais previstas no programa são voltadas às famílias que ganham menos de três salários mínimos, que correspondem a praticamente 90% do déficit habitacional.

Em termos de subsídio, a proporção é ainda menor: apenas 20% dos recursos do programa serão voltados a essa camada. O programa está voltado para atender a apenas 14% do déficit habitacional do país. Esse problema é muito mais grave no Brasil.

Claro que a existência de mais subsídio para as classes populares tem um significado, mas a maneira de condução do programa, dando centralidade às empreiteiras como agentes fundamentais, e a taxa de renda que acabará pegando pela destinação de recursos fazem com que esse programa não tenha a menor condição de solucionar o déficit habitacional no país, principalmente nas grandes metrópoles, onde o valor da terra, muito mais alto por conta da especulação imobiliária, exigiria uma política de desapropriações.

E o ‘Minha Casa Minha Vida’ não prevê desapropriação, apenas negociações e compras de terra. Sem o instrumento das desapropriações, da troca de terra por dívida, que possuem centralidade no tema da função social da propriedade, não se resolve o déficit habitacional do Brasil.

CC: E como você analisa as perspectivas futuras do movimento no atual contexto de lutas dos movimentos sociais no país?

GB: Diante da crise econômica internacional, da carência cada vez maior de condições mínimas de vida digna à maioria da população brasileira, latino-americana, estamos diante de um grande desafio aos movimentos populares, e nisso o MTST tem sua responsabilidade, que é desenvolver cada vez mais o trabalho de base e organizar o povo que está desamparado e sem perspectiva nas periferias urbanas, fazendo grandes lutas e mobilizações para mudar essa realidade social.

A visão do MTST é a de que a sociedade capitalista é predatória e que nossos problemas não poderão ser resolvidos nos marcos desta sociedade. A luta nossa e dos movimentos populares, conseqüente com uma perspectiva de libertação, se confunde com as batalhadas do conjunto da classe trabalhadora por uma nova sociedade.

Esse é o desafio que nos colocamos em todas as nossas atividades de organização popular, mobilização, luta e pressão contra os governos.

Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3504/9/